Está com um dinheirinho guardado? Compre uma vinícola em Bordeaux

Após décadas de valorização contínua, vinícolas da mais famosa região vinícola da França perderam valor. A combinação entre queda no consumo, excesso de oferta e mudanças no mercado abriu oportunidades antes impensáveis para investidores.
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Após décadas de valorização contínua, vinícolas da mais famosa região vinícola da França perderam valor. A combinação entre queda no consumo, excesso de oferta e mudanças no mercado abriu oportunidades antes impensáveis para investidores.

Você certamente tem um amigo de quem já ouviu um desabafo ou uma pequena comemoração. “Consegui vender meu sítio. Afinal, sítio é assim: dá duas alegrias, uma quando você compra, outra quando vende”. A frase virou chavão. Guardadas as devidas proporções, ajuda a entender o momento vivido por várias vinícolas de Bordeaux.

Durante muito tempo, o problema numa das mais nobres regiões produtoras de vinho do planeta era encontrar quem aceitasse vender uma propriedade. Hoje o desafio começa a ser outro: encontrar quem queira comprá-la.

A queda em números

A mudança não aconteceu de um dia para o outro, mas ganhou velocidade nos últimos anos. Bordeaux enfrenta uma combinação de queda no consumo, excesso de oferta e redução no valor das terras. Os números ajudam a dimensionar o cenário. No período encerrado em março deste ano, as vendas de vinhos de Bordeaux caíram para 2,98 milhões de hectolitros, a primeira vez em décadas abaixo da marca de três milhões. O recuo foi de aproximadamente 12% em relação ao período anterior.

Vinhedos diante de um château em Bordeaux, região francesa onde a queda no valor de parte das vinícolas abriu oportunidades para investidores.
Embora os grandes châteaux continuem entre os ativos agrícolas mais valorizados do mundo, a queda no valor de parte das propriedades mudou o mercado de vinícolas em Bordeaux. Foto: Imagem gerada por IA

O reflexo apareceu rapidamente no mercado imobiliário rural. Segundo a agência francesa Safer, referência no acompanhamento do mercado de terras agrícolas, o preço médio dos vinhedos de Bordeaux-Aquitaine caiu 18,4% em 2024, a maior retração entre as principais regiões vinícolas da França. Em algumas denominações, a queda foi ainda mais acentuada: os vinhedos de Saint-Estèphe perderam cerca de 20% do valor em um ano, enquanto em Moulis a retração chegou a 43%.

Lógico, há diferenças no mercado. Uma casa como o Château Calon Ségur, uma das mais tradicionais de Saint-Estèphe, vendida em 2012 por € 170 milhões (aproximadamente R$ 1,02 bilhão), ainda é muito valorizada. A queda de preço acontece de maneira mais frequente em uma faixa mais intermediária do mercado. Em 2016, o empresário chinês Jack Ma adquiriu os châteaux Pérenne e Guerry por cerca de € 12 milhões (aproximadamente R$ 72 milhões), incluindo os estoques de vinho. Hoje possivelmente pagaria uns 70% desse valor.

Por que Bordeaux perdeu valor

A explicação reúne fatores econômicos e mudanças de comportamento.

O consumo mundial de vinho diminuiu, principalmente entre os consumidores mais jovens. Países como Chile, Argentina, Austrália e Estados Unidos ampliaram presença em mercados tradicionalmente dominados pelos franceses. Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas elevaram custos e aumentaram a incerteza das safras.

O próprio governo francês passou a incentivar a erradicação de milhares de hectares de vinhedos para reduzir a oferta e tentar restabelecer o equilíbrio entre produção e demanda.

Diante desse cenário, muitos produtores ampliaram as apostas no enoturismo, na hotelaria, na gastronomia e na realização de eventos, atividades capazes de complementar a renda das propriedades.

Oportunidade exige cautela

Quem imagina comprar uma vinícola em Bordeaux encontra hoje um mercado mais acessível do que há dez ou quinze anos. Isso, porém, está longe de transformar o negócio em um investimento simples.

Além do valor da propriedade, entram na conta os custos de manutenção, mão de obra especializada, equipamentos, certificações e a própria produção do vinho, um negócio sujeito ao clima e às oscilações do mercado internacional.

Para investidores experientes, o momento pode representar uma oportunidade rara. Para apaixonados pelo universo do vinho, continua valendo a máxima: comprar uma vinícola exige muito mais do que capital. Exige planejamento, conhecimento e disposição para esperar resultados de longo prazo.

No fim das contas, o velho ditado continua valendo: comprar é um ato de entusiasmo; vender, um ato de alívio. Mas em Bordeaux, esse alívio depende de um mercado atualmente muito mau humorado.