Renato Machado sempre foi conhecido por ser profissionalmente muito exigente e bastante direto em suas respostas. Nos bastidores da Globo, suas cobranças geravam uma espécie de torcida, mas também de frustração. Quem não conseguia atender seu nível de exigência ficava na esperança de vê-lo errar um dia, ao vivo. E a frustração era inevitável: ele não errava. Daí surgiu uma definição a seu respeito, ao mesmo tempo indignada e elogiosa: Renato Machado era insuportavelmente bom.

Palestrante do quase lendário Encontro Internacional do Vinho, na Pedra Azul, ele deu demonstração de sua franqueza durante uma degustação de champanhe. Quem participou de qualquer uma das várias edições do Encontro sabe: os debates eram acalorados. No caso de Renato, surgiu um questionamento: “E o espumante brasileiro?”. Estávamos em 2002, 2003 e a produção nacional ainda não havia alcançado o patamar atual. Renato foi curto: “E no Brasil tem espumante?”
Um café para Renato Machado
A resposta para o questionamento veio logo depois da palestra. O jornalista andava pelos corredores do Encontro quando foi surpreendido pelo estouro de uma garrafa de espumante sendo aberta, ao seu lado. Renato reagiu imediatamente: “Não se abre um espumante assim!”. Era Ângelo Salton, um dos maiores produtores do país, lhe oferecendo uma taça: “Foi a única maneira de fazer o senhor parar e provar a qualidade do espumante brasileiro…”
A história mais reveladora de seu estilo, no entanto, ocorreu quando ele foi chamado para provar o café da fazenda Camocin. Para quem não sabe, trata-se de um café raro e caro, produzido a partir das fezes de uma ave silvestre, o jacu. Uma atendente, muito solícita, explicou-lhe todo o processo e falou do alto preço alcançado pelo produto. Ele aceitou. A moça, então, pegou uma xícara de acrílico. Não era possível ter louças no estande porque o Encontro acontecia no lado externo da Pousada Pedra Azul e a estrutura tinha algumas limitações. Renato estranhou: “Mas a senhora vai me servir esse café, raro, caro, nessa xícara?” E a atendente, meio desconcertada: “Sim… Aqui precisamos usar algo descartável porque não temos como lavar peças de porcelana, por exemplo”. O jornalista, então, afastou delicadamente a xícara: “Então, me desculpe, mas vou recusar. Eu sou pobre, mas não sou simples”.
Renato Machado partiu na quinta-feira, dia 16, deixando a imagem de um homem educado, elegante, refinado, mas muito exigente. Insuportavelmente bom.
Escrevo há mais de 20 anos sobre o mundo do vinho, principalmente a respeito dos eventos ocorridos no Espírito Santo, mas também sobre fatos e novidades do Brasil e do mundo. Aqui misturam-se dois prazeres, porque amo tanto os tintos e brancos quanto as palavras e frases. Meu maior objetivo é compartilhar com você parte dos prazeres da vida.



