Caçador de vinhos cria carta especial para bistrô em Vitória
Seleção do Caçarola Bistrot reúne rótulos escolhidos por especialista habituado a provar 2.500 vinhos por ano
André Andrès

De vez em quando nos deparamos com alguma oferta de “melhor emprego do mundo”. Algo como cuidar de uma ilha paradisíaca no Pacífico, virar avaliador de hotéis e de destinos de luxo ou se tornar um degustador de chocolates. Normalmente, as pessoas se surpreendem e ficam encantadas com a existência de um “wine hunter”, literalmente um caçador de vinhos, um profissional encarregado de andar por vinícolas de diversas partes do planeta experimentando os mais variados rótulos. Extremamente prazeroso, não acha? E um aprendizado excepcional, porque um wine hunter prova cerca de 2.500 rótulos por ano. Não falta aprendizado, portanto.
Pois esse aprendizado foi aplicado na elaboração da Cave Réserve, a nova carta de vinhos ultra premium do Caçarola, bistrô francês encravado no Barro Vermelho, em Vitória. Tintos e brancos foram escolhidos, com o cuidado devido, por Vicente Jorge, experiente caçador de vinhos. Vicente já trabalhou para conhecidas importadoras brasileiras. Há alguns anos, juntamente com Manu Brandão, grande conhecedor da produção de Bordeaux, criou a Enclos du Wine Hunter. Essa linha de vinhos tem uma característica importante: o preço é sempre proporcionalmente inferior à qualidade. Preocupação natural de quem sempre soube aliar a avaliação do produto com seu aspecto comercial. “É preciso ter visão do mercado”, ensina ele.
A carta do Caçarola
A visão de mercado citada por Vicente tem outra versão no caso da Cave Réserve. A carta será formada por vinhos ultra premium, ou seja, rótulos reconhecidos por sua qualidade muito acima da média. Mas tem um detalhe importante: o bistrô vai adotar os mesmos valores praticados pela Enclos Vinhos, a importadora fundada por Vicente e Manu, na venda direta ao consumidor final. Em outras palavras, o Caçarola terá uma carta de vinhos altamente qualificados oferecidos a preço de loja.
“Queremos atender aqueles apreciadores que têm seus terroirs prediletos e, muitas vezes, trazem suas próprias garrafas quando saem para jantar”, explica Vicente. A oferta é bastante variada. É possível abrir os trabalhos com o Champagne De Venoge Cordon Bleu Brut, continuar com o Nicolas Potel Chablis 2023 e seguir com o Maison Bouachon La Tiare du Pape AOC Châteauneuf-du-Pape 2022.
Visto assim, parece haver um predomínio absoluto dos rótulos franceses. Engano. Pode-se viajar para as terras de Dante Alighieri e provar o Serego Alighieri Vaio Armaron Amarone Classico 2017. A citação do autor da “Divina Comédia” não foi gratuita. “É um ícone do Vêneto elaborado a partir do vinhedo histórico Vaio Armaron, pertencente à família de descendentes de Dante Alighieri desde o século XIV”, explica Vicente. E, lógico, a Enclos du Wine Hunter empresta seu toque nacional com um espumante produzido em parceria com a produtora boutique Lidio Carraro.
Paixão e decepção
A carta elaborada para o Caçarola Bistrot é, como já foi dito, resultado de anos de experiência de um wine hunter com milhares de taças provadas em centenas de vinícolas. Brancos, tintos, espumantes, espaços históricos, degustações, bons pratos… Tudo parece perfeito, principalmente para os apaixonados pelos vinhos. Mas… não é bem assim. Um caçador de vinhos tem de provar tudo. E isso significa beber também vinhos de baixa qualidade (convenhamos, eles existem também aos milhares). Pois é. A sorte do emprego perfeito não existe. Afinal, um provador diário de chocolate certamente deve ficar enjoado só de pensar em cacau. E o morador de uma ilha paradisíaca deve, em muitos momentos, sentir o baque da solidão. Talvez no final de um dia de trabalho, seu maior desejo, mesmo diante de um pôr de sol perfeito, seja o de provar uma bela taça de tinto ou branco. Como aquelas servidas pelo Caçarola Bistrot em sua nova carta de vinhos.
