Garrafa de vinho tinto sem rótulo ao lado de taça de queijos sobre mesa de madeira em Vitória. Foto: gerada por IA.

Vinho chileno cria tradição no Espírito Santo

Em Vitória, o mundo do vinho começa a construir, discretamente, uma tradição a partir de um ícone chileno

André Andr’es

Em “Almanaque”, canção-título de um de seus grandes discos, Chico Buarque se dedica a perguntar qual o início e o destino das coisas. Quem marcava o tique-taque quando a ampulheta do tempo disparou? Quem é o autor do primeiro prédio que não desmoronou? E vai por aí afora, numa recuperação da cultura de almanaque… Isso sempre me levava a outras perguntas. Como surgiu o café, da maneira como o fazemos? Como nasceram certas tradições? Quem ergueu pela primeira vez uma taça de espumante para brindar a chegada de um novo ano?

Nada surge do nada.

Hábitos aparecem, evoluem, se consolidam. Não são registrados em ata. Começam discretamente, num gesto repetido, no brinde revisitado. No Espírito Santo, uma tradição recente começa a ganhar forma no mundo do vinho: as grandes degustações do ano começam com uma prova de Almaviva.

Nada foi combinado. Aos poucos, o ritual foi se repetindo nos últimos anos, muitas dessas vezes com a presença de Michel Friou, autor do tinto de Puente Alto. O enólogo franco-chileno frequenta o Espírito Santo há tempos. Lembro de ter participado de uma degustação de 11 safras de Almaviva, todas as existentes até então, na Casa do Porto. O ano era 2011, penso. Encontro memorável. E nesta quarta-feira, dia 4, esse encontro volta a acontecer na Gran Cave, ótima adega da Mata da Praia, em Vitória, com a apresentação da safra 2023 — e mais um capítulo dessa história se consolida.

Michel Friou, enólogo franco-chileno do Almaviva, durante apresentação em Vitória. Foto: André Andrès
Michel Friou, presença frequente em degustações
em Vitória. Foto: André Andrès

Um nome que carrega história

Almaviva é uma mescla de história e cultura já no rótulo. O nome surge grafado com a mesma caligrafia de Pierre de Beaumarchais, dramaturgo francês do século XVIII. Ele é o autor de “O Barbeiro de Sevilha” e “As Bodas de Fígaro”, inspiradoras de óperas famosíssimas. Nas duas, brilha o Conde de Almaviva.

No “Barbeiro”, ele é o romântico por excelência. Apaixonado por Rosina, tenta conquistá-la sem ostentar seu título. Quer ser amado por sua essência, não pelo peso do seu nome.

A analogia com o vinho não parece casual. Almaviva nasceu da união de dois gigantes: o Château Mouton Rothschild, um dos nomes mais reverenciados de Bordeaux, e a Viña Concha y Toro, potência chilena de escala global. As duas marcas aparecem no rótulo, mas… discretamente. Não há ostentação. O vinho prefere conquistar somente pela taça. O rótulo ainda traz símbolos indígenas anteriores à presença espanhola no Chile, numa referência à visão ancestral da terra e do céu.

Céu e terra. Europa e América. Velho e novo mundo do vinho. Almaviva é resultado de encontros incomuns, daqueles capazes de gerar um ícone cercado de grandes e pequenas tradições. Uma delas se repetirá nessa quarta-feira, em Vitória, abrindo um ano de degustações marcantes e saborosas.⸻

A prova deste ano

O rótulo de 2023 chega cercado de expectativas. Não é raro um Almaviva frequentar a casa superior aos 95 pontos nas avaliações internacionais. James Suckling, por exemplo, deu 100 pontos para as safras 2015 e 2017. Seu preço acompanha a qualidade: uma garrafa varia de R$ 1.400 a R$ 3.200, dependendo do ano de produção. O vinho a ser degustado na Gran Cave foi elaborado com Cabernet Sauvignon (74%), Carménère (19%), Cabernet Franc (5%) e Petit Verdot (2%), com estágio de 20 meses em barricas de carvalho francês (73% novas).

A degustação feita pela revista Adega define o grande tinto chileno como “Estruturado, opulento e, ao mesmo tempo, polido e fluido, tem final carnudo e persistente, com toques de ameixas, de cassis, de tabaco, de alcaçuz, de grafite, de mocha, balsâmicos e terrosos. Álcool 15%.”
A degustação feita pela revista Adega
define o grande tinto chileno como “Estruturado, opulento e, ao mesmo
tempo, polido e fluido, tem final carnudo e persistente, com toques de
ameixas, de cassis, de tabaco, de alcaçuz, de grafite, de mocha,
balsâmicos e terrosos. Álcool 15%.”

Garrafa do vinho chileno Almaviva 2023. Foto: Divulgação
Almaviva 2023 será apresentado na Gran Cave, em Vitória. Foto: Divlgação

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