Com os Estados Unidos comprando menos, o Brasil vira o principal destino do vinho chileno — e sente a pressão do setor em busca de espaço na prateleira.
Nos últimos meses, os comerciantes brasileiros têm sido procurados por representantes de vendas dos vinhos chilenos com uma intensidade incomum. Há motivos fortes para isso. As exportações de vinho do Chile para os Estados Unidos caíram 33% em valor e 23% em volume no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. É a pior queda entre todos os mercados do país: nos demais destinos, seguindo a tendência mundial de diminuição do consumo, a retração ficou em torno de 8%, tanto em valor quanto em volume. Os dados são da Vinos de Chile, associação das principais vinícolas do país.
Além da redução no consumo, observada em grande parte do mundo, a queda no semestre também pode ser atribuída ao efeito da taxa de 10% imposta pelos Estados Unidos ao vinho chileno desde abril de 2025, dentro do pacote de tarifas recíprocas — o mesmo pacote responsável por igualar o Chile à Europa e a dezenas de outros países, depois de décadas de tarifa zero garantida por tratado bilateral.

Segundo a diretora comercial da Wines of Chile, Angélica Valenzuela, produtores e importadores absorveram o custo no início e depois repassaram o valor ao consumidor americano, resultando em um mercado “menos dinâmico e em declínio”. A Vinos de Chile confirma o efeito em número: a participação chilena nas importações americanas de vinho já caiu de 6,1% para 5,4% desde a tarifa entrar em vigor. E a situação tende a piorar: em 24 de julho, fora do período medido pelos números do semestre, a taxa subiu para 12,5%.
Do outro lado, o Brasil
No primeiro trimestre de 2026, o Brasil respondeu por 16% de todo o valor exportado em vinho chileno, com alta de 15% sobre o mesmo período do ano anterior — só em março, o crescimento passou de 45% em volume e em valor. O relatório da associação chilena aponta o Brasil, ao lado de Reino Unido, Canadá, México, Coreia do Sul e Irlanda, entre os mercados responsáveis por compensar as quedas nos Estados Unidos e na China.
Se levarmos em consideração todo o primeiro semestre de 2026, os despachos de vinho do Chile para o Brasil cresceram 9% em volume e 14% em valor sobre o mesmo período do ano anterior. Um dado importante: os rótulos premium, de maior qualidade, cresceram ainda mais: 9,2% em volume e 16,7% em valor. “O Brasil já é um mercado extraordinariamente importante para o Chile, mas ainda estamos tocando a superfície do que podemos construir”, disse Hugo Colares, diretor comercial da ProChile Brasil, em encontro com empresários chilenos e brasileiros em São Paulo, no início de agosto.
Um mundo bebendo menos
O movimento chileno acontece dentro de um cenário mundial de retração. O consumo global de vinho caiu 2,7% em 2025 e acumula queda de 14% desde 2018, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho. O Brasil foi a exceção: bateu recorde histórico de consumo, com 4,4 milhões de hectolitros, alta de 41,9% sobre 2024. Enquanto isso, o vinhedo chileno encolheu 3,7% só no último ano — e acumula perda de 27% de área desde 2019. Pelo jeito, os comerciantes brasileiros continuarão sendo muito procurados pelos representantes de vinhos chilenos no país…
Escrevo há mais de 20 anos sobre o mundo do vinho, principalmente a respeito dos eventos ocorridos no Espírito Santo, mas também sobre fatos e novidades do Brasil e do mundo. Aqui misturam-se dois prazeres, porque amo tanto os tintos e brancos quanto as palavras e frases. Meu maior objetivo é compartilhar com você parte dos prazeres da vida.



