Antes de criar o Gloria, ícone da vinícola, Julián Reynolds foi cineasta. O roteiro da família passa por Alicante Bouschet, Quinta do Carmo e até Mouchão.
Carlos Reynolds começou a apresentar os vinhos na Gran Cave, em Vitória, e imediatamente a memória me levou para um passeio. Mais exatamente para uma noite fechada. A chuva era digna de filme de terror: pesada, fria, um pouco assustadora. A degustação, preparada para um local sem cobertura, na Mata da Praia, ficou inviável. Dos convidados, só Julián Reynolds e eu havíamos chegado antes da tempestade. Mais ninguém apareceu. Com alguns vinhos a serem abertos, presos pela chuva, iniciamos uma longa jornada noite adentro. Na época, Julián havia vindo do Alentejo para discutir contrato com uma empresa de recente sucesso no país, a Wine. Ele buscava informações sobre o mercado brasileiro; eu queria aprender com um dos principais personagens do cenário vinícola português, com uma trajetória de vida tão curiosa quanto rica. Só para se ter uma ideia, antes de entrar no mundo do vinho, Julián foi trabalhar para Hollywood. Mais tarde ele ajudaria a transformar o rótulo da família numa referência em Portugal.
Alô, alô, Hollywood
O Jaguar era do tio, José Maesso, diretor e produtor de cinema. Nas férias em Badajoz, na fronteira da Espanha com Portugal, José enchia o carro de sobrinhos. O menino Julián tirou dali seu primeiro objetivo de vida: se quisesse ter um carrão como aquele, teria de fazer filmes. Seguiu o plano à risca. Tempos depois, foi para a escola de cinema em Londres e, de lá, saiu direto para a Columbia Pictures, onde passou seis anos aprendendo com os americanos e colecionando gentilezas de todos no set. Todos, não. A exceção tinha nome, sobrenome e estilo: Charles Bronson, bruto nas telas e também fora delas.
Julián deixou a Columbia e resolveu dirigir suas próprias obras. Numa sessão em Badajoz, foi questionado pela intelectualidade austera dos anos 1970 sobre sua motivação para filmar. No lugar de um argumento elaborado, ele respondeu com a franqueza de uma criança: queria, mesmo, era comprar um Jaguar. Conseguiu comprá-lo, mas, em 1982, com o cinema espanhol empobrecido, apagou as luzes e deixou a cena.

Da rolha ao vinho
O vinho estava na família desde a chegada dos Reynolds ao Porto na década de 1820. Thomas, tetravô de Julián, era comerciante inglês e vendia cortiça e azeite. Na geração seguinte, os Reynolds desceram para o Alentejo. O negócio era o sobreiro, a árvore de onde se retira a cortiça: as propriedades eram adquiridas por conta dele, e alguns dos terrenos vinham com vinha. Com o bisavô Robert e o irmão John, a família passou aos vinhos tranquilos e criou três marcas: Dom João, Quinta do Carmo e Mouchão. Sim, a renomada Reynolds tem ligação fundamental com outras grandes vinícolas portuguesas. E à família se atribui a chegada da Alicante Bouschet a Portugal, no fim do século
XIX. Hoje a casta está presente do Douro ao Alentejo.

A família nos rótulos
Julián quis recomeçar pela Dom João, propriedade de sua mãe, e foi aconselhado a procurar terra melhor. Em 1996, escolheu Arronches, a 400 metros de altitude, junto à Serra de São Mamede, no Alto Alentejo. Passou a produzir rótulos literalmente familiares.
A cena volta para a Gran Cave. Acompanhados de pratos irretocáveis preparados por Harum Katharian, os vinhos da Reynolds eram apresentados por Carlos. Além de detalhar a importância da Alicante Bouschet e a passagem ou não dos tintos por barricas, o filho de Julián trazia todo o histórico da família Reynolds. E esse histórico está estampado em seus rótulos. Por eles passam várias gerações: Carlos é uma homenagem tanto ao avô de Julián quanto ao seu filho; Julián tem também um rótulo com seu nome. E, como não poderia deixar de ser, o ícone da vinícola leva o nome da mãe daquela criança apaixonada por Jaguar, filmes e vinhos.
Os vinhos
Tinto de entrada da casa, o Carlos Reynolds é um vinho mais jovem, lançado antes dos demais. Tem a Alicante Bouschet como base, ao lado de castas tradicionais do Alentejo, e passa 12 meses em barricas de carvalho francês e mais um ano em garrafa antes de sair da adega. Dividiu a primeira etapa, a do bacalhau confitado, com o Julian Reynolds Reserva, cujo lote junta Alicante e Trincadeira. O Reserva também estagia 12 meses em barrica, mas espera 18 em garrafa.
Preços – Gran Cave
Carlos Reynolds – R$ 299
Julian Reynolds Reserva – R$ 469
O Julian Reynolds Grande Reserva 2016 sobe um degrau. Alicante Bouschet, Syrah e Cabernet Sauvignon estagiam separadamente em barrica por 18 meses. Depois de montado o lote, o vinho descansa cinco anos em garrafa, na própria herdade, antes de chegar ao mercado. Veio com o ossobuco.
R$ 649,00
Para fechar, o Gloria Reynolds 2014, produzido apenas em safras excepcionais. Cada casta passa de 12 a 24 meses em barrica, conforme sua natureza, e o vinho aguarda oito anos em garrafa antes do lançamento. Acompanhou o arroz caldoso de pato.
R$ 2.249,00
Escrevo há mais de 20 anos sobre o mundo do vinho, principalmente a respeito dos eventos ocorridos no Espírito Santo, mas também sobre fatos e novidades do Brasil e do mundo. Aqui misturam-se dois prazeres, porque amo tanto os tintos e brancos quanto as palavras e frases. Meu maior objetivo é compartilhar com você parte dos prazeres da vida.



