Pedra Azul terá degustação especial. Preço do ingresso chega a R$ 41 mil

Degustação de seis ícones franceses na Pedra Azul custa de R$ 35 mil a R$ 41 mil por casal, com hospedagem. Vinhos caros valem mesmo o preço?
Pedra Azul, no Espírito Santo, onde acontecerá degustação de vinhos

Serão abertos seis ícones franceses. Prova acontecerá em hotel na Pedra Azul, e o valor para participar inclui estadia no final de semana. Mas, afinal, vinhos caros valem mesmo quanto se cobra por eles?

O post de divulgação do evento tem causado espanto nas redes sociais. O Natureza Eco Lodge, na região da Pedra Azul, será palco de uma degustação especial com um elenco de seis ícones franceses. O investimento por casal parte de R$ 35 mil e chega a R$ 41 mil, incluindo a hospedagem no final de semana, com jantares preparados por um chef convidado e música ao vivo. Vão ser abertas garrafas de Pétrus (da região de Pomerol), Lafite Rothschild (Pauillac), Latour (Pauillac), Margaux (Margaux), Haut-Brion (Pessac-Léognan) e Mouton Rothschild (Pauillac). Conforme a safra, uma dessas garrafas chega facilmente a R$ 30 mil, R$ 40 mil. Garrafas históricas alcançam números astronômicos, quase inacreditáveis.

Garrafa de Petrus 2018
Pétrus, um dos vinhos que serão servidos na degustação na Pedra Azul.

Quando ocasiões assim ocorrem, sempre surge a pergunta, feita principalmente por quem está pouco habituado a provar rótulos desse nível: por que alguns vinhos chegam a valores tão altos? Eles valem tudo isso? Bem, se levarmos em conta apenas a degustação, o prazer proporcionado pela taça pode ser enorme. Se somarmos história e raridade, a prova torna-se memorável. Mas existem muitos outros pontos a serem considerados, e aí começam os questionamentos.

Com exceção do Pétrus, já bebi os outros tintos em situações muito especiais (dois deles foram abertos numa só tarde, num grupo pequeno, graças à enorme generosidade de um grande amigo, advogado, após um animado almoço na Praia do Canto). Em algumas ocasiões, em determinadas degustações, trocaria o ícone colocado na mesa por rótulos mais baratos, mas bastante saborosos. Os preços? Olha, os preços causadores de espanto até em degustadores experientes (e aqui estamos falando de vinhos vendidos ou leiloados por R$ 150 mil, R$ 200 mil e por aí afora) são artificiais, e esse é um fenômeno relativamente recente diante da milenar história do vinho.

Valores desequilibrados

Os preços dos rótulos oscilam, muitas vezes, por conta de sua raridade, da alta demanda, da pequena produção. Nessa faixa estão, por exemplo, os ícones a serem degustados na Pedra Azul. Esses fatores, no entanto, não são suficientes para explicar o fato de um Mouton Rothschild 1945 atingir o valor de R$ 1,6 milhão, mesmo sendo uma garrafa jeroboam (de 4,5 litros) de produção restrita e elaborada no final da Segunda Guerra.

Mesmo quando nos deparamos com rótulos normais, a disparidade de valores é difícil de ser justificada. Como explicar a diferença entre um Pêra-Manca, tinto português hipervalorizado no Brasil (e só no Brasil), cujo preço gira em torno de R$ 4,5 mil (safra recente), e um Santa Rita Casa Real, encontrado no mercado por cerca de R$ 700? Pêra-Manca tem grande qualidade. Mas uma garrafa do vinho alentejano não vale seis ou sete garrafas de Santa Rita. Não gosta de rótulos chilenos? Então podemos comparar com um espanhol relativamente simples, o Beronia Gran Reserva: um Pêra-Manca equivale a dez Beronias. É muito.

Uma história nada nobre

A explosão nos preços dos vinhos aconteceu nas últimas quatro, cinco décadas. E ela se deu graças a fraudes, golpes e espertezas de quem atua no mercado. O caso mais ruidoso, retratado no documentário “Sour Grapes” (2016), é o do indonésio Rudy Kurniawan. Radicado em Los Angeles, ele virou, nos anos 2000, um dos maiores compradores de Borgonha e Bordeaux raros. E inflava os preços fortemente com suas compras. Tinha um interesse especial nisso, como se viu mais tarde. Com preços hipervalorizados, em 2006 ele vendeu parte de uma adega num leilão por cerca de US$ 24,7 milhões (em torno de R$ 136 milhões), recorde para o setor. Boa parte das garrafas era falsa: Kurniawan produzia “ícones” em sua casa, com vinhos misturados e rótulos impressos por ele mesmo. A fraude começou a ruir quando Laurent Ponsot, do Domaine Ponsot, encontrou em um leilão lotes do Clos Saint-Denis produzido por ele. As safras eram anteriores a 1982. No entanto, a primeira safra do Clos Saint-Denis de Ponsot é justamente de 1982. Kurniawan foi condenado em 2014 a dez anos de prisão.

Uma das vítimas do indonésio foi o bilionário americano Bill Koch. Fraude não era exatamente uma novidade para Koch. Antes de ser enganado por Kurniawan, ele já havia sido envolvido num episódio contado por Benjamin Wallace no livro “O Vinho Mais Caro do Mundo”. Em 1985, o colecionador alemão Hardy Rodenstock pôs à venda garrafas atribuídas a Thomas Jefferson. Terceiro presidente dos Estados Unidos, Jefferson foi um dos grandes conhecedores de vinho de seu tempo e percorreu os vinhedos de Bordeaux e da Borgonha quando morou na França. Um Lafite 1787 gravado com as iniciais “Th.J.” saiu por 105 mil libras na Christie’s de Londres. Koch comprou quatro garrafas da mesma origem. Uma investigação, pedida pelo bilionário, concluiu: a gravação das iniciaishavia sido feita com ferramenta moderna. O Lafite de Koch, caríssimo, era falso.

O “mercado” gostou

Existem outros fatores nessa história intrincada da evolução de preços. As avaliações de Robert Parker para vinhos franceses no início da década de 80 e a explosão de consumo dos países asiáticos, principalmente a China, nos anos 2000 entram nessa equação. Mas o importante é o resultado: os valores chegaram a patamares altíssimos e lá ficaram, com alguma oscilação, porque o mercado viu nos vinhos uma ótima chance de “investimento”. Além disso, existe, infelizmente, o inescapável cenário da lavagem de dinheiro: com referências desregradas de preço, o vinho passou a ser usado para justificar fortunas criminosas.

Então, a partir de agora, quando você se espantar com o valor de uma garrafa de vinho, lembre-se: ela pode trazer muita história, alta qualidade, extrema raridade, mas seu preço também é resultado de uma trajetória na qual se misturam jogadas de marketing, espertezas pontuais e fraudes gigantescas.

Para brindar

Weekend des Grands Crus

Quando: 18 a 20 de setembro de 2026
Onde: Natureza Eco Lodge, ES-164, km 303,5, Vargem Alta, na região da Pedra Azul
Vagas: 30 casais
O que inclui: hospedagem no fim de semana, jantares harmonizados com chef convidado, degustação de ícones de Bordeaux e show de Thiago Brava
Investimento por casal: de R$ 35 mil a R$ 41 mil, conforme a acomodação. São R$ 35 mil no quarto na sede, R$ 37 mil no quarto e sala, R$ 39 mil no chalé montanha luxo superior e R$ 41 mil no luxo superior com vista para o golfe.