Retorno do tradicional Dia Grande evidencia a transformação da Herdade do Esporão. A tradicional vinícola do Alentejo amplia o espaço das oliveiras em meio à queda do consumo mundial de vinho e ao bom momento vivido pelo mercado de azeites.
As crises invariavelmente produzem imagens simbólicas. Um homem usando peles de animal resume a invasão do Capitólio, nos EUA. Prateleiras de papel higiênico vazias mostraram a reação da população nos dias iniciais da pandemia. Executivos demitidos com caixas de papelão andando pelas ruas resumiram a crise do Lehman Brothers.
Quem participou do Dia Grande, na Herdade do Esporão, neste ano, encontrou uma paisagem diferente. As tendas montadas para receber convidados estavam cercadas por oliveiras, e não pelas tradicionais fileiras de videiras de um dos mais conhecidos produtores portugueses. Sinais da crise do vinho…
A mudança vai além da escolha do cenário para a celebração. Ela reflete uma estratégia que vem redesenhando a propriedade localizada em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo. A Esporão amplia a troca de videiras por oliveiras, acompanhando duas tendências que caminham em direções opostas: a retração do consumo mundial de vinho e a valorização do mercado de azeites.
Dia Grande revela uma nova paisagem
O Dia Grande é uma das tradições mais emblemáticas da Esporão. A celebração, suspensa durante a pandemia e retomada neste ano, marca o encerramento da vindima e reúne colaboradores, parceiros e convidados em torno do vinho, da gastronomia e da cultura alentejana. Desta vez, as oliveiras passaram a dividir – e até disputar – o protagonismo da paisagem. A escolha do local reforça uma transformação cada vez mais visível para quem visita a herdade.
A mudança não começou agora.
No Relatório de Vindima de 2025, a Esporão informa ter reduzido em 184 hectares a área ocupada por videiras durante um processo de reestruturação agrícola. Embora o documento não detalhe quanto dessa área foi convertida em oliveiras, a empresa vem ampliando a importância da olivicultura em sua estratégia de produção.
O movimento não representa uma ruptura com a tradição vitivinícola da empresa. Trata-se de uma resposta às transformações do mercado e às novas condições impostas pela agricultura contemporânea.

Retração no mercado do vinho
Depois de décadas de crescimento, o consumo mundial de vinho vive um período de retração. Mercados tradicionais, como França, Itália, Espanha e Portugal, registram queda no consumo per capita. Ao mesmo tempo, consumidores mais jovens diversificam seus hábitos, dividindo espaço entre vinho, cervejas artesanais, destilados premium e bebidas com menor teor alcoólico.
Essa mudança afeta diretamente a rentabilidade do setor e leva produtores a reavaliar investimentos de longo prazo.
Enquanto o vinho enfrenta um cenário mais desafiador, o azeite atravessa um ciclo bastante diferente.
As secas severas na Península Ibérica nos últimos anos reduziram a produção e impulsionaram os preços internacionais a níveis históricos. Mesmo com a recuperação parcial das últimas safras, o azeite permanece valorizado e continua oferecendo perspectivas de retorno financeiro superiores às observadas antes da crise climática.
Para quem cultiva tanto videiras quanto oliveiras, como é o caso da Esporão, essa nova realidade influencia decisões agrícolas capazes de moldar a propriedade pelos próximos anos.
Estratégia acompanha o mercado
A escolha do local para o Dia Grande significa um abandono do vinho pela herdade? Nem tanto. A Esporão é reconhecida internacionalmente pelos seus vinhos, mas também consolidou uma posição de destaque entre os grandes produtores portugueses de azeite extravirgem.
Nesse contexto, ampliar a presença das oliveiras não significa abandonar o vinho. Representa uma adaptação às mudanças do mercado, do clima e da própria agricultura do Alentejo.
A decisão, no entanto, evidencia algo: produzir vinho sempre exigiu um olhar para além da adega, mas agora é necessário ter uma visão ainda mais ampliada para buscar caminhos. É preciso considerar a evolução do consumo, a rentabilidade das diferentes culturas e a sustentabilidade da propriedade no longo prazo.
Uma paisagem em transformação
Durante séculos, videiras e oliveiras dividiram naturalmente a paisagem alentejana.
O equilíbrio entre elas mudou.
O retorno do Dia Grande tornou essa transformação visível. Ao receber seus convidados entre oliveiras, a Esporão apresentou, talvez sem essa intenção, um retrato do momento vivido pela vitivinicultura mundial. As videiras continuam sendo parte da identidade da herdade, mas as oliveiras conquistam um espaço cada vez maior. A festa em meio às azeitonas, e não entre as uvas, é o oposto do urro contra a democracia emitido por um maluco usando chifres no Parlamento norte-americano. Mas é tão simbólica quanto…
Escrevo há mais de 20 anos sobre o mundo do vinho, principalmente a respeito dos eventos ocorridos no Espírito Santo, mas também sobre fatos e novidades do Brasil e do mundo. Aqui misturam-se dois prazeres, porque amo tanto os tintos e brancos quanto as palavras e frases. Meu maior objetivo é compartilhar com você parte dos prazeres da vida.



